03/02/2012

haicai arraial do cabo


entre dois mantos azuis 
gozar sob o sol
 no entremeio dos pés

ego is

uma joia
que não pode ser jogada fora
que não pode ser usada
que deve enfeitar a si própria
e aceitar o que a circunda

16/01/2012

fuck you, old lady !

não há por que ter medo do tempo
nem do seu cessar repentino
porque na hora do destino
não haverá nenhum momento
de reflexão ou desatino
quando a flor do pensamento
terá sido

14/01/2012

alminha


tudo vale a pena:
coração ralado
coração moído
coração gelado
coração partido

mas coração sem cor, sem ação
é o nada mais dolorido.

grauZero


Nos últimos duzentos anos esperei e experimentei muitas coisas.
Mais esperei do que experimentei.
¿ Será possível experimentar mais do que esperar?

Tanto mar, e eu terra à vista.
Eu a mergulhar na sua ferida feminina de nascença.
E depois te largar sem querer
até doer como um estômago arrancado a unha.
E já não posso mais comer, pois não há como digerir o mundo
e dirigir a geléia geral.
¿A alegria é a prova dos nove?
¿Como prová-la entre zeros à esquerda?
¿Chutar a própria bunda?
¿Fugir da própria sombra?
¿Comer a própria língua?
¿Foder o próprio cu?

O vento bate na cara antes do chão.

08/01/2012

praiana


a céu aberto
 o véu solúvel
o sol volúvel
tudo certo

consoláveis (take 1)


uma mulher veste o véu vermelho
sob o sol
( )
alguém se aproxima bruscamente,
abocanha a ponta do véu
e lentamente mastiga-o
todo na boca.

ela sente medo, sente-se nua.
-não é fácil viver sem céu-

a câmera se volta para outra mulher
que olha para o mesmo alguém de véu no céu da boca,
ela sorri
retira o próprio véu da bolsa
e o coloca na cabeça
esperando que também seja
de bom grado devorado em fade .


03/12/2011

tudoisso


tudo é muita coisa.
tudo é tanta coisa que são todas as coisas.


as coisas que não foram ditas devem ser ditas.

e se todas as coisas já estão ditas,
elas devem ser diferentemente
repetidas.
isso é tudo.

23/11/2011

galho



vide o verso
trata-se de troço concreto
sem bojo alfabético
de traçado incerto e torto
quase um treco tosco
de difícil trato
obsoleto, solitário e avesso.


17/11/2011

em torno

está tudo parado
está tudo em silêncio
está tudo estável

mas na prateleira
há um caos que treme
há um caco que não teme o fogo,
os ácaros fõnicos, a poeira cósmica,
nem o mofo dos mafagafinhos platônicos.

está tudo
parado em silêncio estável
no entorno da sílaba tônica


15/11/2011

côncava


uma pessoa construiu um vácuo
esse vácuo vive às turras com essa pessoa
essa pessoa vive de cultivar esse buraco
esse buraco fica na altura da boca do estômago
essa pessoa cruza os braços pra esconder o oco
esse oco na boca da pessoa é âmago
esse âmago vazio ressoa

11/11/2011

a imagem não bate


a imagem não bate,
as coisas que dela emanam não evocam
a calma e o caos dos vivos.

é preciso um cacho de equívocos,
uma dose de vocais e instrumentos imprecisos
para dar menos sentido ao vidro.

o passageiro olha
apalpa a mão inerte
como quem agradece à palmatória,
dá o corpo e a cara a tapa,

larica de ave de rapina
toda fome presa ao mapa

27/10/2011

vendo-se


o seu peixe está à venda.
por algum motivo você vende o seu peixe.

você e o seu peixe, pescado por aí,
durante o dia, num café do centro.

a bunda displicentemente firme da menina
do café se movia,
o jornal aberto nos esportes,
o aroma do pó torrado,
a lembrança daquele livro
no sebo marasmático.

só quem abandona o monodrama num sebo
sabe o quanto há de sabedoria nesse cosmos
de poesia e poeira, poeira e poesia.

mas a bunda
firme da menina displicente
é plena da mais tátil realidade,
assim como o jornal, o expresso sem açucar,
o pequeno biscoito que acompanha o café,
a anotação grafada numa folha solta.

então você se levanta e toma
o caminho de volta ao sebo
para uma segunda chance,
e no caminho se pergunta
o que vem a ser palpável
além do movimento displicente
da bunda firme da menina
e do livro que se anuncia.